Complain
#02 | Independente, forte, capaz e exausta
“(…) Detesto me sentir assim, mas não dá para evitar ficar com raiva e indignada…”
— Journal, L.F (26/12)
Eu quero reclamar. Hoje eu só quero reclamar. Quero reclamar de todas as coisas sem o peso invisível de que eu deveria ser mais positiva. Estou exausta de tudo isso. Dessa coisa de respirar fundo, se acalmar e olhar para as situações de outra maneira.
Entendo tudo isso, de verdade. Não estou aqui para lhe dizer que todos devemos ser pessimistas e acreditar que tudo o que acontece no mundo é horrível. Não, não é isso. É só que sinto falta de ter permissão para reclamar. Sinto falta de poder achar que tudo é uma merda quando tudo está uma merda. Eu sinto falta de poder dizer que tudo está uma merda. Sinto falta de usar algumas palavras.
Parece que nada mais é permitido. Que o sentir só é válido se ele for positivo. Parece que se tornou errado estar frustrada e com raiva e exausta. Sinto como se forçassem um positivismo que todos, no fundo, sabem que não existe. Não em todos os momentos, pelo menos.
Eu quero reclamar.
Quero reclamar da vida, mas não para sempre. Não quero ser a pessoa pessimista que sempre acha que tudo vai dar errado, mas me sinto sendo sufocada quando parecem querer que eu diga que está tudo bem e que tudo vai dar certo, que é só aguardar e pronto.
Eu sou essa pessoa. Sou a pessoa que encontra a solução, a que é sempre empática até demais e que, sim, tenta enxergar a vida com bons olhos. Mas eu também sou a pessoa que quer gritar de raiva, que quer jogar o laptop do outro lado do cômodo se ele trava, que assiste às notícias e se enfurece e que deseja que todas as pessoas ruins queimem no inferno.
Eu sou positiva, mas também negativa. E parece que o mundo não consegue lidar com isso.
Já tentei diversas vezes me manter no positivismo, utilizar da minha habilidade em encontrar soluções para assim encontrar mais calma e equilíbrio. Acontece que quando você “entra” nesse caminho, nenhum outro parece aceitável.
Veja por tudo o que já lhe escrevi aqui. Estou sempre tentando refletir, encontrar maneiras mais brandas de lidar com os percalços da vida, eu estou sempre lidando com tudo da maneira que se espera que eu lide. Que todos nós lidemos. Principalmente, nós, mulheres.
Ninguém nos quer raivosas, ninguém nos quer vociferando nosso desagrado, ninguém nos quer enfatizando as injustiças e tampouco lutando por nossos direitos. Ninguém nos quer com raiva porque acham que nos tornaremos incontroláveis, nos chamarão de loucas por isso.
E aí entram as distrações. Nos tornam inseguras, fazem com que odiemos nossos corpos e tudo o que somos. Então, oferecem anestésicos. Promessas de cura, de reestabelecimento, de afinidade, pertencimento.
O que a sociedade quer é que estejamos distraídas e exaustas, assim eles nos mantém sob controle.
E isso me deixa ainda mais enfurecida.
Eu não quero ser a boa garota. Não quero ser boazinha o tempo todo. Quero sentir raiva e não sentir culpa por sentir raiva, visto que tenho todos os motivos para tal. Eu quero estar furiosa, sim, e que não me deixem ainda mais furiosa ao cochicharem que enlouqueci.
Eu quero sentir. Eu só quero sentir o que quer que esteja sentindo sem o peso opressor de uma sociedade que simplesmente tem MEDO da minha fúria e tenta de todas as maneiras me silenciar, me esconder, me distrair e me manipular.
Hoje eu estou com raiva e eu quero reclamar de todas as pequenas coisas. E talvez amanhã eu não esteja mais assim, sei que não estarei. E aí está o ponto central. Nenhum sentimento dura para sempre, então por que raios eu tenho que me exaurir o tempo todo para reprimir o que sinto?
Eu estou exausta de não poder sentir, de estar sempre sendo inconscientemente manipulada para ser tranquila e agradável e linda e com a pele perfeita e com diplomas e com um relacionamento e com dinheiro e com viagens e com amigos e com… tudo. Tudo, menos raiva. Tudo, menos desagrado. Tudo, menos fúria. Tudo, menos exausta.
Eu quero reclamar da vida e não escutar que reclamar é clamar duas vezes, que eu deveria enxergar o copo sempre meio cheio e que meus pensamentos atraem as coisas que irão acontecer na minha vida.
Meu amor, vem cá, deixa eu te dizer uma coisa: eu sei. Eu já sei de tudo isso e eu acredito nisso também. Mas eu quero reclamar da vida e usar a palavra ‘merda’ quando tudo está uma merda e amanhã acordar achando que o dia será incrível só porque um pássaro apareceu no parapeito da minha janela.
E isso não significa que sou louca, significa que sou humana. Que sentimentos não duram para sempre, que o desagrado, a frustração, a raiva e a angústia fazem parte desse emaranhado de coisas insignificantes que nos torna quem somos.
Que tudo passa e a vida é o que é.
E está tudo bem.
Mas hoje eu vou reclamar, sim, porque estou exausta de não poder mandar as pessoas à merda.
Um beijo.
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