Unfamiliar
#01 | Independente, forte, capaz & exausta
“(…) Talvez eu tenha realmente entendido as coisas e também um pouco de mim mesma.”
— Journal, L. F (31/12)
Nunca consegui explicar, colocar em palavras, o que sentia. Minha mente, assim como meu corpo, se retrai e ergue ao redor de si muros tão altos e resistentes que nem eu mesma consigo atravessar. Muitas vezes, eu me escondo até de mim mesma. Não suporto existir se não houver a mínima possibilidade de controle.
Pensei que isso era ‘coisa minha’, coisa que eu podia controlar, coisa que eu poderia deixar de lado enquanto fingia ser mais alegre, mais animada, mais extrovertida, mais qualquer coisa que fosse necessário. Porém, não é assim que funciona.
Os anos passam e eu ainda não sei como deixar as pessoas se aproximarem sem que eu entre no modo reclusão-análise (do outro). Na minha cabeça todos têm sempre segundas e terceiras intenções e eu preciso estar desperta e pronta para lidar com isso. Pronta para lutar ou para desaparecer.
Não consigo aceitar ajuda porque estou acostumada a fazer tudo sozinha. Eu sou a que pensa na pior das hipóteses porque preciso sentir que estou preparada caso algo ruim aconteça. O carinho e a ajuda não são familiares, me retraio quando aparecem porque não sei lidar com isso. Eu posso fazer tudo sozinha, posso lidar com o que quer que seja sozinha, já fiz isso antes. Está tudo bem.
Não sei diferenciar fazer demais/me doar demais com criar conexão e laços com alguém. Não consigo descansar porque, na minha cabeça, isso se confunde com tédio, com ‘não fazer nada’, e eu tenho que estar fazendo alguma coisa o tempo todo para mostrar que valho algo.
E eu reconheço o quanto isso é perigoso. Essa ideia de que só tenho valor quando sou útil.
Eu sei como sou, sei porquê me tornei dessa maneira. Eu reconheço meus defeitos, mesmo sendo difícil reconhecer alguma qualidade.
Me estresso quando algo não acontece como eu gostaria, porque confundo controle com segurança. E tudo o que eu sempre desejei na vida, desde que consigo me lembrar, é me sentir segura. Mas nunca me sinto verdadeiramente segura em lugar nenhum, nem em mim.
Isso se estende para lugares como esse. Mesmo não existindo aqui, mesmo não existindo de fato em qualquer lugar virtual, eu ainda quero um pouco de controle e eu ainda espero que tudo não pareça tão instável para que eu possa apreciar as coisas só um pouquinho.
Como tudo o que planejo escrever aqui e nunca escrevo, todos os rascunhos que salvo esperando o momento certo de publicá-los, sabendo que o momento certo não existe e que eles ficarão sempre ali como um rascunho.
Acontece que eu não quero lidar com como as pessoas escolhem agir de maneira tão odiosa, escrevendo absurdos porque anseiam por atenção, aplaudindo pessoas estúpidas porque acreditam que estão do lado da maioria e esse deve ser o lado “certo”.
Quero ser sempre sincera e expor minha opinião, quero falar sobre o que está acontecendo no mundo assim como contar coisas aleatórias que acontecem na minha vida, mas as pessoas se tornaram deliberadamente idiotas, furiosas, frustradas e odiosas.
E eu pratico yoga, faço pilates, corro, faço exercícios de respiração, medito sempre que posso e escrevo meus sentimentos em incontáveis journals. Porém, até este momento da minha vida em que te escrevo isso, reconheço e aceito que não tenho a menor paciência para lidar com pessoas idiotas, furiosas, frustradas e odiosas.
Eu ainda estou aprendendo. Estou no processo de aceitar meu sistema nervoso instável, conhecê-lo para acalmá-lo.
Por isso preciso de tranquilidade. Preciso ter mais momentos de paz e descanso para não confundi-los com tédio e insegurança. Preciso, sim, me sentir segura, por isso desapareço daqui e de todos os lugares. Não por medo da opinião dos outros, mas por saber que tudo mudou radicalmente e não foi para a melhor, como algumas pessoas se forçam a acreditar.
Me recuso a aceitar certas coisas, assim como me recuso a abdicar da minha paz para entreter pessoas estúpidas.
Por isso te escrevo agora. Porque sinto saudade daqui e porque escolhi publicar um livro curtinho que sei que pode causar algum alarde ou até mesmo desconforto em algumas pessoas. Porque eu sei o que é ficção e muitas pessoas também sabem, mas algumas fingirão não saber só para criar caso com algo bobo.
É que quero viver em paz e isso também significa parar de permitir que pessoas idiotas, furiosas, frustradas e odiosas tenham algum controle sobre a minha vida, sobre o que amo, o que faço, o que digo, o que publico.
Porque eu amo o que faço e estou ensinando meu sistema nervoso instável que o amor não precisa doer para ser real.
A.M.B.I.V.A.L.E.N.T.E
Ela não tem nada. Ela não tem ninguém.
Ela foi internada em um hospital psiquiátrico.
Ela escreve cartas
O destinatário é Deus.
Disponível em 18 de fevereiro. (AMBIVALENTE)


